A COR DO ENSINO DE JORNALISMO

Apesar da obrigatoriedade, ensino de relações étnico-raciais nos cursos de jornalismo ainda não é uma realidade

por Thais Folego Gama

Quando aprendi sobre a história do jornal Diabo Coxo (1864-1865) na faculdade de jornalismo, foi ensinado que ele havia sido fundado pelo ilustrador italiano Angelo Agostini. A in- formação estava correta, porém incompleta. Ela apagava da história do folhetim – que se destacou no século 19 por uti- lizar caricaturas como estratégias na compreensão de fatos sociais – seu outro fundador: ninguém mais, ninguém menos que o jornalista, advogado e abolicionista Luiz Gama.

O apagamento das contribuições de pessoas negras não está restrito ao ensino de jornalismo, ele se reflete também na prática jornalística. Com redações formadas por maioria de jornalistas brancos, com pouco ou nenhum letramento racial, práticas racistas permeiam o fazer jornalístico, da escolha das pautas e de fontes até as narrativas construídas.

“Na prática, ao não reconhecerem o racismo como um problema do campo jornalístico, os currículos o reforçam”, diz Carla Baiense Felix, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) no artigo “A obrigatoriedade do ensino das relações étnico-raciais nos Cursos de Jornalismo: um debate necessário”.

“Falar em identidade negra numa universidade do país é o mesmo que provocar todas as iras do inferno, e constitui um difícil desafio aos raros universitários afro-brasileiros”, constatou o professor e ativista Abdias do Nascimento, na década de 1970. Cinquenta anos depois, muita coisa mudou no acesso de estudantes negros às universidades, mas o ensino de relações étnico-raciais ainda é incipiente.

Em 2023, a Lei 10.639 completa 20 anos no Brasil. Ela tornou obrigatório, em 2003, o ensino da história e da cultura da África e a educação para as relações étnico-raciais no ensino básico em todo o país. No ensino superior, um ano depois, um parecer do Conselho Nacional de Educação (homologado pela Resolução no 1, de 17 de junho de 2004) foi no mesmo sentido e reiterou a obrigatoriedade da educação das relações étnico-raciais, conhecimentos de matriz africana e que dizem respeito à população negra. As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de jornalismo, de 2013, vão na mesma linha.

“AO NÃO RECONHECEREM O RACISMO COMO UM PROBLEMA DO CAMPO JORNALÍSTICO, OS CURRÍCULOS O REFORÇAM”, DIZ CARLA BAIENSE FELIX, PROFESSORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

“Considerando a realidade das universidades brasileiras, é imprescindível a incorporação de disciplinas obrigatórias aos currículos, como forma de garantir o acesso dos e das estudantes aos conteúdos e combater o racismo na prática jornalística”, diz a professora da UFF. Segundo ela, apesar da legislação, a obrigatoriedade não é cumprida à risca.

Segundo o último Ranking Universitário do jornal Folha de S. Paulo (RUF), de 2019, o curso de jornalismo mais bem colocado no estado de São Paulo é o da Universidade de São Paulo (USP), que obteve a quarta colocação nacional. A jornalista Carla Pires Gomes estudou os impactos das relações étnico-raciais no currículo do curso na USP entre 2011 e 2021. A conclusão é de que ainda há fortes reflexos da branquitude nas de- cisões relacionadas ao currículo do curso, assim como em outras instâncias da universidade.

“Alguns dos principais traços da branquitude são o silenciamento e o não reconhecimento do papel de pessoas brancas diante do racismo estrutural e das desigualdades sociais do país, assim como a normalização da super-representação branca, mesmo em um país com maioria negra”, diz Gomes em seu trabalho de conclusão da pós-graduação em Cultura, Educação e Relações Étnico-raciais.

Ela explica que esses elementos impactam no currículo na medida em que a temática étnico-racial não é abordada formalmente nas disciplinas obrigatórias do curso, apesar da existência de legislações e diretrizes. Ela observa que, com base nelas, cursos de jornalismo de outras universidades adotaram o tema em suas grades curriculares.

“O curso de jornalismo da USP contribui em algum nível para a manutenção do racismo midiático, da desigualdade racial no jornalismo e da propagação da branquitude no imaginário da sociedade brasileira, já que desconsidera os impactos das relações étnico-raciais na formação universitária de jornalistas e, consequentemente, na prática jornalística”, conclui.